O Casamento


Jô Benetton

Marina não sabe se se considera uma mulher de meia idade ou de idade inteira. Quarenta e cinco anos parecem redondos, um círculo fechado, uma vida. No rosto, quando espelho, a flacidez da maturidade. O metro e setenta do seu bem proporcionado corpo, tem a tranqüilidade de ser sábio. Como quando se sabe o que quer, caminha altiva em trilhas, estradas ou na vida.

Mais do que verdade, este é um sentir que nasceu quando tinha vinte e um anos. Estava em algum ano do curso de Arquitetura e grávida. Mário esperou-a por apenas quinze minutos, no atraso, para um casamento rápido na igreja da Consolação. Muitos amigos não estavam, pois era dia de reunião do partido. Além disso, Mário tinha que desencumbir-se rapidamente desse compromisso, pois à tarde teria o último exame para graduar-se em direito.

Na única foto desse dia, ambos trazem um sorriso largo e olhos iluminados, que alguém não cético diria que eram felizes. Devia ser um dia muito quente. As pessoas na foto estavam com roupa muito leve e a luz na foto diz de um sol a pino.

Agora, Mário está Ministro e discursa — Sras. e Srs., para finalizar isto que pode até ser uma série de justificatrivas, deve ser também visto como motivos. A questão da moradia popular, sob ângulo político é assunto eleitoral, como vértice administrativo, isto é, no ministério é um problema sem solução, e para os senhores arquitetos nem sequer posso vislumbrar uma forma de ser, nesta Associação, diante da atuação nacional, um lugar para discussão.

Contaram-me que foi desta frase que Marina se fez presente. Saindo do fundo da sala, caminhando lentamente e com o olhar fixo nele, sentou-se na terceira fila, numa cadeira no centro do anfiteatro. Fez-se silêncio por alguns segundos. O olhar de fora de Mário vagava entre as pessoas enquanto cumpria a tarefa de responder polidamente meras questões políticas. O de dentro havia visto Marina.

A volta pra casa, em carros separados, mantinha inalterada a rotina — o banho, duas ou três frases trocadas e jogadas fora, um copo de leite, uma maçã, a leitura no leito.

Marina fala algo de fome e dor de cabeça. Mário estende-lhe o copo de leite e uma aspirina. Depois, levanta e vai à cozinha. Toca o interruptor e na soleira da porta está contemplativo.

Por impulso, apenas por impulso, em ação lenta e leve, arruma numa bandeja grande, os copos, o vinho, as torradas, os potes de manteiga, caviar e queijo.

Subindo a escada se descobre salivando. No quarto, Marina pousando o livro no colo, ilumina a cena com ternura.

Com a bandeja nos lençóis, Mário serve vinho enquanto a mão esquerda repousa sobre a direita de Marina. As palmas das mãos se encontram e os dedos se curvam num abraço quando brindam na primeira comemoração do casamento.

[Artigo publicado no Jornal de Piracicaba, seção Opinião, p. A-2, 04/01/1997]

Endereço para correspondência:
Maria José Benetton,
Occupational Therapist, Doctor in Mental Health, Coordinator at Centro de Estudos de Terapia Ocupacional
Rua Fradique Coutinho, 1945
São Paulo, SP
Brazil
05416-012
Email: cto_sp@terra.com.br

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