Pinochet Assassinado

Jô Benetton

No aeroporto de Santiago o movimento ainda é normal. A porta automática fica alguns segundos aberta enquanto Ela se equilibra no salto sete. Alisa a saia de seda verde e se transveste com os óculos escuros. Como gazela apruma-se. Ao andar aumenta o movimento dos quadris. Na direção do despacho, abre a bolsa buscando passagem e passaporte. As mãos ainda tremem. Para e olha em volta.

O movimento do aeroporto está se alterando. Há uma agitação que se inicia pelo espaço da administração e a última chamada para o vôo ao Rio esta no ar.

Para o embarque imediato, Ela muda de rumo e se dirige ao portão. O barulho começa em sussurros, logo chega a gritos da morte de Pinochet. Ouve-se a correria, o choro gritado, o atropelo cantado.

No portão que se fecha Ela passa em disparada, passagem e passaporte na mão.

Há um lugar onde senta-se e se desprega de si. Ouve seu coração que bate e isso é bom, mas, vê figuras em pânico e imagina que deve sentir , mas não, basta saber que esta viva. Se interroga por não perceber o risco, o perigo, o medo e porque não a alegria. Pinochet esta morto.

O tempo sem sentido, o espaço não vivido passam no avião que ora decola, ora é alvo de tiros. Abre-se ou não a sua portas. O avião decola e não há alivio. É preciso sair do espaço aéreo do Chile. Depois disto o ambiente parece não se alterar, o silencio continua.

No desembarque Ela parece ser a única pessoa que é recebida. Rostos lhe sorriem, braços que abraçam, lábios que beijam e, ela ainda não sente. São braços que a fazem caminhar para um outro portão, que direcionam ao novo embarque e permanecem aquecendo-a no trajeto.

Rostos desconhecidos sorriem acariciando-a com o olhar no outro desembarque. Recostada, quase relaxada, no assento traseiro de um carro, Ela começa a sentir. Primeiro a brisa do mar, depois a beleza do mar azul do Caribe e as ondas fortes que machucam o Malecom. Ela está quase feliz.

Ao entrar no casarão secular, fica cega pela diferença de luz, a do sol a pino de fora e a penumbra fresca de dentro. Sente beijos ternos nas faces e o roçar da barba macia. O comandante a abraça forte e sobre seus ombros Ela o vê. Ela então, cai em prantos e com ele o seu segredo. Ela havia assassinado Pinochet por amor. Um amor em segredo, que ela queria correspondido, mas, não agradecido.

Para Ela minha maravilhosa amiga cubana.

[Artigo publicado no Jornal de Piracicaba, seção Opinião, p. A-2, 31/07/1997]

Endereço para correspondência:
Maria José Benetton,
Occupational Therapist, Doctor in Mental Health, Coordinator at Centro de Estudos de Terapia Ocupacional
Rua Fradique Coutinho, 1945
São Paulo, SP
Brazil
05416-012
Email:
cto_sp@terra.com.br

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