Rasgos de Conhecimento



Jô Benetton

Coisa antiga — como rasgos de lucidez! Para quem é novo, estes eram pequenos e fortuitos momentos em que se pensava ter inventado uma solução, resolvido um problema, ser estalado um pensamento.

Neste século de Freud, esses rasgos foram apelidados de insight, muito conhecido dos psis. Era através dele que os velhos, cientistas e artistas conheciam e muito rapidamente escreviam, esculpiam, pintavam. As coisas giravam em torno de uma boa idéia e uma boa idéia é uma coisa rara. Sabia-se disso e por isso mesmo logo procurava-se que fosse transmitida. Tratava-se da busca de parceria, de aferiação e aprofundamento. Uma idéia ia à procura de outras, desenvolvendo associativo o conhecimento em rede.

Mas, num momento, em que talvez por não ser membro da academia não sei precisar quando, essa forma natural de ser pensante foi substituída por estar pensante. Assim, um rasgo de lucidez passou a ficar igual às boas intenções, das quais o inferno está cheio.

Uma boa idéia foi substituída por um problema e o insight por uma pesquisa. A arte de pensar, de criar, de inventar virou uma pesquisa de… O cientista pesquisa, o artista pesquisa, o estudante pesquisa; há pesquisa de opinião e opinião para e da pesquisa. O computador tem acumulado dados quase infinitos, do pessoal à Internet e concomitantemente o desconforto de não se poder conhecer tudo que lá está. Pode-se saber, mas não conhecer o que lá está.

Esse saber não traz como possível a obtenção do novo, do criativo, do inventivo. O novo aí parece querer que seja o absolutamente novo, distante da genialidade, da originalidade, do encontro com o novo no espaço e tempo vividos em evolução. Pelo contrário, a originalidade está na busca do corte nos dados cumulativos, analisados e de forma precisa por estatísticas, em problemas aparentes. O importante não está na originalidade do caso, mas na originalidade da apresentação do caso.

Não é mais pela inquietação de cada um que se defendem teses, mas sim através de um problema bem formulado. Sobre isso, acrescenta-se uma enorme burocracia. Aquela muito conhecida nas universidades e institutos de pesquisa (aliás, quase em extinção). Semanas, meses e anos investidos na organização de papéis e formulários para obtenção de verbas. Nessas instituições, originariamente isso era simplesmente ter espaço, tempo e recursos para desenvolver uma boa idéia.

Durante um estágio de pós-doutorado na École de Hautes Etudes en Sciences Sociales, o professor Jean-Pierre Goubert, historiador social da Saúde, tomava nota, parcimoniosamente, de algumas idéias surgidas do nosso debate. Do lugar de orientada, já viciada pela nossa academia, obsessivamente gravava todos os nossos encontros. Nesses meses que se seguem, Goubert tem me enviado artigos que escreveu a partir daquelas idéias. Percebo neles o resultado de uma investigação que realizou em seu próprio conhecimento. Esses rasgos de conhecimento, sem muito trâmite burocrático ou grandes exigência editoriais, têm sido rapidamente publicados em revistas ou livros entre os milhares editados na França anualmente. Os pedaços de saber do Goubert têm ocupado espaços no conhecimento de uma população, numa cultura.

Por outro lado, ou melhor, do outro lado do mundo, uma também professora pesquisa. O problema é a avaliação da clínca da terapia ocupacional. O primeiro desenho da pesquisa foi rejeitado pelos órgãos de financiamento, faltava nele a precisão no traçado das linhas do método e a avaliação da Comissão de Ética. Longo tempo lá ficou e eu sabendo que seria rejeitado pela indiscrição de um de seus membros. Ética?

Reescreve-se o projeto e mais seis meses. Já com a pesquisa em andamento parte dos recursos chegam. Pode-se com eles adquirir computador, filmadora e outros apetrechos muito úteis para um curso que quase nada tem. Mas, falta dinheiro vivo. Há que se pagar terceiros e não porque eu queira.

Uma pesquisa de avaliação hoje tem que ter instrumentos e devidamente validados. Uma quantidade enorme deles é construída por norte-americanos e europeus e muito poucos por brasileiros ou sul-americanos. Aliás, em Programas de Saúde quase não temos o que avaliar, que diremos com que avaliar? Em terapia ocupacional, menos ainda.

Nos Estados Unidos tem, na França não. Importamos então os formulários, os traduzismo, mas isto não basta. Temos que nos utilizar de seus métodos de validação da tradução e da aplicação, e depois fazer testes de confiabilidade. Há mais de um ano, pagam-se do próprio bolso as traduções, teste e reteste, compram-se programas de estatística e e-mail para o autor do protocolo, que, apesar de não ter o seu protocolo validado em seu próprio país, nos preocupa, porque já está construindo uma nova versão.

Num dos seminários sobre a cura, coordenado pelo prfoessor Jean-Pierre Peter, antropólogo e historiador, também na École de Hautes Études, para grande surpresa minha, um dos assuntos foi a cura na terapia ocupacional, estudada através do olhar da também antropóloga espanhola Marta Alué.

Marta, após uma terrível explosão em um carro, teve 80% do seu corpo queimado e uma chance ínfima de sobrevivência. Sobre uma longa e dolorosa recuperação de parte de seu corpo e sua alma, ela escreve o livro Sauver sa Peau.

O capítulo que trata da terapia ocupacional é que fez Peter qualificar nossa profissão de filosófica e maravilhosa. Marta diz: "Foi na terapia ocupacional que comecei a rir com o coração, a fazer humor negro nas costas dos manetas ou dos coxos, a me ligar com amizade com pessoas de todas as idades, sexo e condições"… "O deficiente físico não vive somente de fisioterapia. Ele necessita também aprender a viver com aquilo que lhe falta e ser o mais autônomo possível. Os terapeutas ocupacionais se encarregam dessa missão"… A sala (de terapia ocupacional). Se encontra na masmorra, no fim do porão do hospital. Apesar disso, todos os antigos pacientes não deixam jamais de ir até lá cumprimentar, quando de visita." … "Alguns ignoram o qu se faz nessa sala e para que serve. E se alguém explica que lá se faz também omeletes de batatas, o mistério aumenta."

Pois não há mistério algum, só estamos tratando da construção de cotidianos, essas coisas do dia-a-dia, para as quais poucos poetas constróem odes. Mas, nós terapeutas ocupacionais sim, poemas de vida escritos a três mãos e meia.

Nos resta a pergunta: como avaliar isso? Que protocolo de pesquisa deve ser usado para medir a construção de vida nesse pequeno e simples mundo?

Allué, não mais só a paciente: "Aprendi de início a observar os comportamentos e também a respeitá-los. Por deformação profissional — sou antropóloga — pude ordenar, classificar e interpretar minhas observações". É evidente que Allué fertilizou a sua terapia ocupacional com outro domínio e, penso, não só a sua. Os seus critérios de investigação, da mesma forma que aqueles da clínica, são facilmente transportados e constantemente presentes. Portanto, jamais podem ser abandonados e minimamente concomitantes aos critérios especificamente desenvolvidos para a pesquisa.

[Artigo publicado no Jornal da USP, seção Opinião, página 2, 21 a 27/9/1998]

Endereço para correspondência:
Maria José Benetton,
Occupational Therapist, Doctor in Mental Health, Coordinator at Centro de Estudos de Terapia Ocupacional
Rua Fradique Coutinho, 1945
São Paulo, SP
Brazil
05416-012
Email: cto_sp@terra.com.br

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